Lembra quando os primeiros bancos online surgiram, nos livrando das excruciantes filas das agências? Quando os noticiários dos jornais e das tevês pularam para a web, nos libertando dos horários rígidos da mídia convencional? Quando o e-mail se tornou o substituto universalmente aceito dos correios? Bem, estamos vivendo uma outra virada de enorme impacto no nosso cotidiano. A internet sem fio está começando a nos libertar do desktop, levando para toda parte, com telefones celulares, handhelds e palmtops, os imensos recursos da WWW.
Pense em qualquer um dos maiores bancos brasileiros, seja Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Unibanco - todos eles têm serviço de envio de saldos bancários e investimentos para o celular, usando SMS - o sistema de mensagens curtas de texto via telefone móvel, que faz girar, no mundo inteiro, cerca de 20 bilhões de mensagens por mês. As mensagens alcançam você onde você estiver - basta ter o celular por perto. Para que checar o saldo no desktop? Pense agora na imensa variedade de notícias que pululam na web. Não é mais preciso ficar sentado na frente do micro para ler o que interessa. Para quem tem um Palm, basta sincronizar o aparelho com um desktop com acesso à internet para depois levar no bolso, a fim de ler no dentista ou no trânsito, dos noticiários mais respeitados do mundo, como os do Wall Street Journal e New York Times, aos brasileiríssimos Folha Online e TCINet.
Há uma enorme variedade de coisas muito excitantes acontecendo. É o caso dos novos serviços baseados em localização, que estão em fase experimental. Eles podem tirar você do aperto numa rua deserta, com o carro sem gasolina. Ou perdido numa cidade estranha, sem saber que rumo tomar. Basta uma ligação de celular e... bingo! Entre as operadoras brasileiras, quem saiu na frente é a Tess, que vem testando o sistema nas cidades paulistas de Santos e Campinas. O usuário pode obter a localização de postos de gasolina, hotéis, borracharias, chaveiros e outros estabelecimentos próximos sem precisar informar onde está. Ele é localizado automaticamente pela rede. INFO testou o serviço em Campinas, em ligações que duraram em média 30 segundos cada. As respostas chegaram 3 segundos depois do fim dos telefonemas.
Dinheiro pela rede
Pagamentos pelo celular também estão em testes. Há, por exemplo, um acordo entre o Bradesco e a Telesp que permite o pagamento na rede Cinemark de cinemas, em alguns postos de gasolina e ao recarregar o celular pré-pago. O usuário tecla um código no celular, o valor é transferido para a conta da loja e um comando é enviado ao caixa para emissão do recibo ou do ingresso. Essa transação vai ficar mais fácil no futuro, quando o celular e o terminal do ponto-de-venda tiverem interfaces Bluetooth. Dados como o código da loja e o valor da compra serão transferidos por ondas de rádio para o celular - o usuário não precisará mais digitá-los.
O celular funciona por si só na internet sem fio, mas cumpre também outro papel. Faz as vezes de modem para notebooks e palmtops. Os kits para conexão do telefone móvel aos computadores, que eram raros um ano atrás, agora são oferecidos por praticamente todos os fabricantes de celulares. Uma solução dessas pode custar 750 reais, caso do Nokia 7160, que se conecta ao notebook por raios infravermelhos, ou pouco mais de 1 000 reais, preço de um celular Motorola ou Kyocera com um cabo adicional, por exemplo.
Há também soluções para conexão de palmtops a redes corporativas. A Compaq vende, para seu iPaq, um cartão 802.11b - o padrão mais usado em redes locais sem fio - no formato Compact Flash. Com este acessório, o usuário tem acesso sem fio à rede corporativa e à internet dentro do prédio da empresa. Esse tipo de solução vem sendo empregado, por exemplo, em hospitais e em restaurantes como o Red da Avenida Paulista, em São Paulo. Lá, o garçom pode transmitir seu pedido à cozinha sem ir até lá. Basta assinalar os pratos e as bebidas na tela do palmtop.
Ainda neste ano, o brasileiro terá acesso a uma segunda geração de internet móvel, ainda mais prática e funcional. O advogado vai poder consultar um banco de dados remoto sobre legislação, o médico vai ver a ficha do paciente e o vendedor de seguros poderá simular uma apólice na tela - em qualquer lugar, com um aparelho pequeno e leve e sem ter de esperar pela conexão.
Há vários fatores que vão viabilizar essa nova fase da internet móvel. As primeiras redes de comunicação sem fio por pacotes - com velocidade de até 144 Kbps e conexão permanente - já estão sendo testadas. Como a maioria das pessoas ainda usa um modem de 56 Kbps para conectar seus micros à internet, elas vão ter a curiosa experiência de acessar a rede com o celular no dobro da velocidade usada no micro de casa. Os celulares inteligentes estão chegando às lojas, reunindo funções de telefone e computador de mão num único aparelho, e os modems sem fio para palmtops virão em seguida. Isso deve estimular o aparecimento de serviços cada vez mais afinados com as necessidades e os desejos das pessoas.
É bem possível - vamos torcer - que a internet sem fio do futuro próximo apague a decepção causada pelo WAP, uma tecnologia pouco madura que prometeu muito e acabou entregando pouco, por exigir paciência de monge budista na hora da navegação. Os brasileiros parecem inclinados a levar seus aparelhinhos de comunicação por toda parte. Em março, a Anatel contabilizava 24,5 milhões de celulares no Brasil. A previsão é que, em 2005, haverá 58 milhões de aparelhos em uso no país. No lado dos palmtops, os números são mais modestos, mas também apontam para um rápido crescimento. Estima-se que haja 400000 desses dispositivos em uso no país. Com certeza, não vai faltar gente interessada em acessar informações, movimentar a conta bancária e enviar mensagens longe das tomadas.
Mensagens no bolso
No segundo semestre, os adeptos do SMS terão muito mais com que se divertir. Há um colar de novidades à frente. Uma delas é o chat por SMS. O sistema é o mesmo das mensagens comuns. A diferença é que o celular armazena os textos, que podem ser consultados na tela de forma semelhante ao que acontece numa sala de chat na web. A Nokia, por exemplo, planeja lançar aparelhos com esse recurso. Eles terão, ainda, a possibilidade de remeter figuras pelo SMS. Outra inovação é enviar e receber mensagens fora da área de cobertura, como já acontece com as ligações de voz. Isso vem sendo negociado entre as operadoras. O envio de mensagens instantâneas do celular para um micro também está a caminho. Esse recurso já é suportado pelo ICQ, o mais conhecido dos programas de mensagem instantânea. A ATL e a Telemig são duas das operadoras brasileiras que fizeram acordos com a AOL/Mirabilis, produtora do ICQ, para implementação desse sistema.
Uma parte das esperanças de uma internet sem fio nota 10 está depositada no Bluetooth, tecnologia que pretende ligar instantaneamente os dispositivos mais variados numa distância entre 10 e 100 metros. Mas nem tudo tem sido fácil nessa área. O Bluetooth vem enfrentando problemas de interferência com redes 802.11, usadas em escritórios, e com outros equipamentos que operam na mesma freqüência de rádio. Mesmo assim, 2 000 fabricantes já investem nessa tecnologia. Isso sugere que a solução dos problemas é só uma questão de tempo. Produtos baseados em Bluetooth, como cartões de interface para palmtops e notebooks, deverão chegar ao mercado no segundo semestre. Uma pesquisa da Cahners In-Stat Group estima que, já neste ano, serão vendidos 15 milhões de dispositivos Bluetooth no mundo. Mas esse número deve crescer para quase 1 bilhão em 2005.
Se o Bluetooth, por enquanto, está mais para promessa do que para realidade, outro grande protagonista da internet sem fio, o telefone inteligente, já está aí na esquina. A Kyocera começa a vender neste mês o primeiro smartphone a chegar ao mercado brasileiro, o QCP 6035. Ele já está homologado pela Anatel e vem sendo testado pelas operadoras que usam o padrão CDMA. Ao combinar um micro de mão Palm com um telefone, esse aparelho permite navegar na internet, enviar e receber mensagens com o conforto da interface por caneta e de uma tela muito maior que a dos celulares comuns.
Qualquer pessoa que já enfrentou a incômoda tarefa de escrever uma mensagem usando o teclado numérico do celular percebe imediatamente a vantagem disso. "É um telefone que roda aplicativos. Isso vem despertando o interesse de empresas e profissionais", diz Sérgio Haguiara, gerente-geral da Kyocera no Brasil. Ele acredita que, pelo menos no início, as aplicações profissionais vão predominar. Pessoas que trabalham em campo vão usar aparelhos como o QCP 6035 para enviar e receber informações. Um vendedor de seguros, por exemplo, pode verificar o cadastro do cliente, simular uma apólice e enviar a proposta ao escritório sem precisar de um notebook ou de uma tomada para isso.
Mas o que deve alavancar mesmo a internet móvel no Brasil são as redes de comunicação por pacotes. Foram elas que possibilitaram o sucesso do iMode no Japão e da Palm.net, a rede de serviços para dispositivos Palm VII nos Estados Unidos. O iMode, o sistema de internet sem fio da NTT DoCoMo japonesa, já tem 24 milhões de usuários e ganha 1 milhão a mais a cada mês. Enquanto o usuário de iMode tem seu celular sempre ligado na rede, o brasileiro que acessa um site WAP tem de aguardar quase 1 minuto para que seja estabelecida a conexão. Essa diferença é uma das razões do insucesso do WAP até agora.
Conexão permanente
Há pelo menos seis redes de comunicação sem fio por pacotes em implantação no Brasil. Inicialmente, elas deverão ter seu foco no usuário profissional, o que não significa que não haverá opções para quem quer apenas ter as conveniências da conexão permanente em sua vida pessoal. Empresas que já empregam notebooks ou palmtops como ferramentas de trabalho para vendedores e outros profissionais que atuam em campo têm interesse em ter conexão sem fio. Além disso, as redes por pacotes vão conectar terminais para pagamento com cartão em lojas e táxis, máquinas de venda de refrigerantes e caixas eletrônicos bancários. Permanentemente ligados a uma central, esses dispositivos poderão processar os pagamentos de forma quase instantânea e serão monitorados o tempo todo para correção de falhas.
Em julho, deve entrar em funcionamento em São Paulo a rede Mobitex da TWW, antiga PageNet. A tecnologia Mobitex, da Ericsson, é específica para transmissão de dados. É empregada para conexão do micro de mão Palm VII, que é vendido nos Estados Unidos já com modem embutido. O serviço é cha-mado de Palm.net e está disponível em 260 cidades americanas. A velocidade é baixa, 8 Kbps, mas é bom lembrar que o iMode também opera a apenas 9,6 Kbps. É pouco para multimídia, mas suficiente para aplicações baseadas em dados alfanuméricos como e-mail, pagamentos eletrônicos e páginas WAP.
Redes para o Palm
No início, a rede da TWW será usada principalmente para conectar dispositivos de automação comercial. Mas os usuários de palmtop não foram esquecidos. A TWW fechou um acordo com a empresa baiana Techlink, que desenvolveu modems Mobitex sem fio para o Palm. "É uma ótima opção, por exemplo, para vendedores que trabalham em campo. Vão poder consultar o cadastro de clientes e enviar os pedidos rapidamente pela rede", diz Eduardo Brigagão, presidente da TWW.
Os modems são de dois tipos: um deles, um pouco volumoso, vai encaixado na parte traseira do Palm. O outro permanece separado, mas comunica-se por meio de uma interface Bluetooth - um pequeno acessório que é acoplado ao palmtop. Essas soluções ainda não têm a praticidade do Palm VII, com seu modem sem fio embutido. Mas elas vão ser as únicas opções para conexão do Palm à rede da TWW, já que, por enquanto, ela não vai ser compatível com o Palm VII.
Há uma outra rede Mobitex sendo implementada pela UNT/Coopernet, que também deverá dar ênfase, no início, a aplicações de automação comercial e bancária. A empresa está começando a testar o sistema em São Paulo, ainda sem uma data definida para iniciar a operação comercial. A idéia é expandi-lo para Rio de Janeiro e Curitiba até 2002. Segundo Simão Brayer, presidente da UNT, essa rede vai ser compatível com o Palm VII. "Há interesse em usar o Palm VII para aplicações em vendas, seguros e serviços em domicílio", diz ele.
Antes de essas redes ficarem prontas, haverá outras opções no mercado. Já neste mês, deve entrar em operação a primeira delas, da Nextel, operadora de comunicação via rádio e telefonia que atende a empresas e grupos de profissionais liberais. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o usuário da Nextel terá acesso permanente à internet por uma taxa mensal fixa. A velocidade é de 22 Kbps, o que já é um avanço em comparação com os 9,6 Kbps dos celulares TDMA ou os 12,4 Kbps dos CDMA.
A Motorola e a Nextel estão começando a comercializar o primeiro telefone/rádio móvel capaz de explorar o potencial dessa rede de tecnologia iDEN, o i85. Ele tem um interpretador de linguagem Java que poderá ser usado para rodar aplicativos. "Um banco, por exemplo, pode implantar seu próprio sistema de pagamento no aparelho. Nós usamos criptografia de 1024 bits para garantir a segurança", diz Adrian Levinson, responsável pelos serviços de transmissão de dados da Nextel. O i85 também funciona como modem sem fio para conectar um notebook ou palmtop à internet.
As redes que interessam mais ao usuário individual são as que combinam comunicação por voz e dados. É o caso da rede CDMA 2000 1x - uma extensão do padrão CDMA - que a Telesp Celular pretende inaugurar em outubro em São Paulo. Ela vai transmitir dados a 144 Kbps com conexão permanente. É uma velocidade capaz de provocar inveja em usuários de micros conectados por linhas telefônicas comuns. A Telesp Celular está chamando esse serviço de 3G 1x, sugerindo que já é o primeiro passo para a terceira geração dos celulares.
O celular na internet
A primeira rede CDMA-2000 1x começou a funcionar no ano passado na Coréia. Com 144 Kbps, é possível receber música, fotografias e filmes no celular. Baixar aplicativos para o telefone, palmtop ou notebook é outra possibilidade interessante. A Samsung e a LG - ambas coreanas - foram pioneiras no desenvolvimento de celulares que seguem esse padrão e deverão chegar às lojas brasileiras no final deste ano. "Vamos ter kits de conexão para laptops e telefones com tela colorida. O sistema de identificação de chamada vai poder mostrar a foto da pessoa que está telefonando", diz Gilson Rondinelli Filho, vice-presidente de negócios e rede da Telesp Celular. A tecnologia CDMA-2000 1x também faz parte dos planos da Global Telecom, em Santa Catarina e no Paraná, e da Telefônica Celular, no Rio de Janeiro.
No futuro, o usuário deverá contar com equipamentos mais funcionais, redes mais velozes e serviços mais complexos e convenientes. A previsão é que em 2003 já haverá redes sem fio de 2 Mbps. Quando isso acontecer, os equipamentos móveis serão totalmente multimídia. A operação de baixar um filme ou uma música para um aparelho portátil vai ser bastante rápida. Jogos online também poderão ter um alto grau de complexidade e o celular e o palmtop serão janelas para uma enorme quantidade de informações e serviços.
domingo, 10 de janeiro de 2010
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